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Published on May 26th, 2015 | by Leo Schmidt

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BSP + jQuery Mobile, ou a aventura de SAP-webdev – Parte II: Frontend

E aí seus consultor WD (Walking Dead), tudo bem? Aqui tá tudo certo também.

Nessa segunda parte da série eu vou falar de coisas que podem ser novidade pros desenvolvedores mais ABAPeiros: técnicas para desenvolver uma view com jQuery Mobile (que abreviarei como jQM neste post) para uma aplicação com backend BSP. Se você não está acostumado com desenvolvimento web, seria prudente checar os links que eu coloquei na primeira parte dessa série.

Ferramentas

Eu nunca subestimo o masoquismo das pessoas, mas eu acho que escrever e testar HTML, JavaScript e CSS na SE80 é no mínimo ruim. Felizmente, não é necessário fazer isso: você pode escrever e testar a lógica e definição das suas views em outros lugares / editores e depois importar para o SAP. Vou deixar aqui algumas dicas de ferramentas que eu uso:

Editor: uma indicação boa que peguei do próprio Maurício aqui do ABAP Zombie é o Sublime Text. É um editor bacana que tem várias opções de plugins de automação, syntax highlighting para várias linguagens, enfim, é muito bom.

Desenho de telas: às vezes é necessário montar alguns mockups de telas para entender a lógica, ou mesmo para mostrar como a aplicação vai se comportar. Eu gostei da versão gratuita do Moqups, porque os elementos já são bem parecidos com os do jQM.

Testes: em certas situações você acaba tendo que bolar algo do capeta mirabolante com CSS pra alguma tela, ou você precisa mesmo entender como e quando aquele evento maldito incomum do jQM é disparado, ou você apenas quer ver se a sua lógica não deu merda funciona. Existem vários sites bacanas para esse tipo de teste, e o que eu uso é o JSFiddle. Ele tem um controle de versões bem simples, e você pode compartilhar e criar forks de códigos de outras pessoas com facilidade. Eu tenho um dashboard com algumas coisinhas lá, e você pode criar a sua conta e criar um dashboard seu também.

Multi-HTML vs. multipage

Uma das primeiras decisões a se tomar é qual vai ser a arquitetura de páginas da aplicação. Seria melhor usar o padrão multi-HTML, onde cada página jQM fica num documento HTML separado, ou o padrão multipage, onde as páginas jQM estão todas no mesmo documento HTML? Existem argumentos a favor e contra o uso de cada um, como se vê nesse post aqui.

De maneira geral, se a sua aplicação tem uma pequena quantidade de telas, a escolha de arquitetura vai influir pouco na performance. No caso do projeto que eu estou usando como exemplo nessa série, porém, foram necessárias 10 telas com lógica (pesada) de negócio e outras 4 só com links para navegação. Não é prudente que uma aplicação para dispositivos móveis fique recarregando a cada mudança de página, dependendo assim bastante da rede, o que seria o caso se a arquitetura multi-HTML fosse a escolhida. Portanto, eu escolhi o padrão multipage, de modo que assim que o usuário fizer login corretamente, todas as páginas jQM da aplicação serão carregadas no DOM, e somente a primeira página, a página inicial, é exibida (esse comportamento é descrito na documentação do jQM). Assim, a navegação é resolvida via Ajax e fica quase independente do backend, e a view precisará ser carregada apenas uma vez para cada execução da aplicação.

E por falar em Ajax…

A importância do Ajax

…praticamente TODA ação que resulta em navegação, leitura ou alteração dos dados na view pode ser (ou será) resolvida com Ajax. Isso se torna uma parte essencial da aplicação quando se escolhe a arquitetura multipage, porque nesse caso não temos roundtrips constantes ao servidor para esse fim. Como estamos usando jQuery, é portanto imperativo que se entenda e se utilize corretamente os métodos que expõem as funcionalidades Ajax, entre eles o método $.ajax(), o mais low-level, porém principalmente os métodos simplificados $.get() e $.post().

Um detalhe importante sobre as chamadas Ajax é que estas são assíncronas, o que quer dizer que embora saibamos exatamente o ponto de origem da chamada, não sabemos em que momento a resposta chegará do servidor. Os métodos de Ajax do jQuery possuem vários parâmetros onde podem ser indicadas funções de callback, que serão chamadas dependendo do tipo da resposta e em pontos específicos antes ou depois do resultado.

Além disso, os próprios métodos Ajax retornam um objeto do tipo jqXHR, que é basicamente um encapsulamento jQuery do objeto XMLHttpRequest do browser, e de onde podem ser chamados outros métodos para cada tipo de resposta do servidor, em vez das – ou adicionalmente às – funções de callback. Então uma chamada Ajax típica ficaria, por exemplo, assim:

Outro detalhe importante é que os forms numa arquitetura multipage devem ser declarados sem o atributo action, porque um submit em um form que contenha esse atributo resulta sempre em um POST no recurso indicado e num subsequente refresh no documento, que como eu mostrei lá no começo é um empecilho para uma arquitetura com apenas um documento HTML. Isso muda um pouco a maneira de submeter os dados de um form; na maioria das vezes será necessário passar diretamente os valores dos campos, ou usar algum método de jQuery que retorne uma string de parâmetros, como o .serialize() ou o $.param(), para então passar os valores como parâmetros de URL em um GET ou como corpo da request num POST. Um exemplo simples:

HTML

Exemplo renderizado no JSFiddle

JavaScript

Nos exemplos acima eu acabei já descrevendo outra característica importante, embora já bem conhecida, para a definição dos métodos das requests de uma aplicação web: se a request vai apenas buscar dados do servidor, deve-se usar o método GET; se a request servirá para alterar os dados no servidor, mesmo que apenas dentro da aplicação, deve-se usar o método POST. Aqui tem alguns argumentos sobre o porquê disso.

Mais um detalhe: um form mesmo sem action ainda pode sofrer um submit quando se pressiona ENTER. Esse comportamento pode ser desabilitado com um pouco de JavaScript:

É interessante ter um elemento visual que indique quando a aplicação está parada esperando a resposta de uma request Ajax. Para isso, podemos usar o loader do jQM. A maneira mais simples é exibir o loader sempre que uma request for disparada, e escondê-lo quando a resposta chegar:

Eventos

É importante lembrar que ao usar jQM a view está sujeita aos eventos do jQM (obrigado, Capitão Óbvio). Portanto, ao fazer binding dos eventos da tela – como cliques, abertura e fechamento de collapsibles, abertura e fechamento de popups, dentre outros – é melhor fazê-lo dentro dos callbacks de outros event bindings de eventos do jQM, como eu fiz no exemplo acima onde eu desabilitei a função do ENTER dentro do callback de criação do pagecontainer. O mesmo vale para as chamadas Ajax.

Isso parece ser um detalhe de menor importância, mas acredite quando eu digo que não é. O jQM tem a tendência de fazer algumas coisas malucas quando se tenta mesclar os seus event bindings com os do jQuery. Eu quase fiquei doido tentando descobrir porque os eventos dos botões que eu estava colocando na view estavam sendo disparados TRÊS VEZES para cada clique, até eu mudar a declaração do binding para dentro de um evento pagecreate. Então, em vez de fazer algo como…

…é melhor fazer:

Adaptando paradigmas e elementos de telas

Há certas coisas que o desenvolvedor ABAP está acostumado a fazer ao criar interfaces para SAP GUI que nem sempre são fáceis de se reproduzir fora desse meio. Em alguns casos, basta adaptar o elemento; em outros, é preciso revisar a funcionalidade da tela. Vejamos como fazer algumas adaptações de elementos e paradigmas de interface para jQM:

Passagem de parâmetros entre telas: isso é bem comum em telas ABAP, e resolvemos em JavaScript do mesmo jeito que em ABAP: usando variáveis globais. Declare as variáveis que servirão para passar parâmetros entre páginas diretamente na área de scripts do <head>, tomando o cuidado de não declarar variáveis com o mesmo nome dentro de funções. Se for necessário manipular as variáveis no meio do caminho (limpar, validar, etc.), é possível fazê-lo nos eventos do pagecontainer, como o pagecontainerhide, que é disparado após a página origem da navegação ser totalmente escondida, ou o pagecontainerbeforeshow, que é disparado antes da animação de exibição da página destino ser executada.

Matchcodes (ajudas de pesquisa, F4): um matchcode simples com valores fixos sempre pode ser reproduzido fielmente com um <select>. Já um matchcode mais complexo, com parâmetros, abas ou ambos, vai exigir uma página ou um popup extra, e isso significa construir uma lógica de passagem de parâmetros entre telas e também pelo menos mais uma request Ajax para fazer a busca; portanto, só construa se for realmente necessário. Uma exceção neste caso é o matchcode para seleção de datas; ele pode ser perfeitamente refeito com <select>s para ano, mês e dia, mas neste caso eu prefiro usar um plugin chamado DateBox, que possui um ótimo seletor de datas, mais flexível do que o do SAP GUI inclusive.

Formatação de input:

  • Na maioria dos casos, os inputs podem ser feitos com type="text", e o atributo maxlength é a melhor maneira para limitar o comprimento do valor.
  • Para campos baseados em variáveis ABAP do tipo c, é possível usar a propriedade CSS text-transform: uppercase para deixar o texto em maiúsculas, porém isso só vai modificar o texto que está na tela – portanto, é necessário transformar o texto do campo em maiúsculas novamente quando os valores estiverem sendo tratados pelo backend.
  • Campos de data: uma boa maneira de formatá-los é utilizando o já mencionado DateBox – você pode estilizar os campos depois que a página foi criada, chamado o método .datebox() e passando as propriedades conforme a documentação do plugin. Uma boa prática é definir o formato da data a partir dos parâmetros do usuário: para isso,
    • chame a BAPI_USER_GET_DETAIL e escolha o formato correspondente ao valor do campo DEFAULTS-DATFM entre os formatos definidos no domínio desse campo;
    • traduza o formato SAP para o formato usado no DateBox: por exemplo, o tipo de formato de data mais comum, que é o 1 ( DD.MM.AAAA ), viraria %d.%m.%Y;
    • ao estilizar o campo, passe o formato definido para a opção overrideDateFormat.
  • Formatação de quantidades / valores em moeda é outro problema para o qual precisamos de um plugin jQuery – nesse caso, eu uso o Number. A ideia é parecida com a que eu expliquei para o DateBox: pegue a definição a partir do campo DEFAULTS-DCPFM, compare com os valores fixos do domínio e passe os caracteres de separador de milhares e de decimais para o método que estiliza os campos, conforme a documentação do plugin.

Mensagens: essa é uma área mais aberta. É possível adotar uma linha de design um pouco mais moderna usando elementos toast (que se chamam assim porque parecem com torradas pulando da torradeira) usando plugins como o jquery.mobile.toast, mas eu considero que os popups do jQM já servem bem pra esse propósito. Eu fiz esse fiddle aqui bem simples pra mostrar como exibir algumas mensagens em popups jQM.

Tabelas: não é muito prático ou funcional mostrar uma tabela com uma tonelada de informações numa tela de dispositivo móvel, como faríamos normalmente num ALV. As tabelas de jQM são pensadas para terem poucas colunas (de 5 a 7, no máximo, é um intervalo razoável) e serem responsivas, mudando de formato em resoluções menores – veja os exemplos de reflow nos demos de jQM. Uma solução para exibir itens com muitos dados é usar um collapsibleset, onde somente se exibe uma lista de descrições dos itens e os detalhes aparecem quando se clica em uma linha (escondendo detalhes de outro item que porventura já estejam sendo exibidos). Outra solução, sem usar elementos nativos de jQM, é implementar um carrossel, onde também se exibe um item por vez e a navegação entre itens é feita horizontalmente. Essa técnica precisa de um pouco de CSS e jQuery pra funcionar, porém é claro que já existem vários plugins que fazem isso, como o OWL Carousel ou o slick. Eu fiz, como exemplos, um fiddle com um carrossel bem rudimentar e um outro mais complexo, com mais alguns controles, ambos sem usar plugins e sem muita estilização, mas mostrando como o conceito funciona.

Tirando tudo isso, o uso de jQuery e jQM oferece possibilidades praticamente ilimitadas para desenvolver interfaces. Por exemplo, o projeto que eu estou usando de exemplo nessa série, que é uma aplicação para coleta de materiais, se beneficiaria muito com um leitor de código de barras. Como integrar isso na aplicação? Com um plugin de jQuery, claro. O WebCodeCam é uma implementação simples que usa a API getUserMedia para capturar a imagem da câmera e identificar códigos de barra de vários tipos. O único problema é que não funciona no Safari nem no IE.


Bom, é isso por enquanto. Esse post tem mais links do que artigo da Wikipedia, mas a maioria aponta pras documentações de jQuery e jQM, então basta ir lá pra ter uma referência mais completa e concisa. Espero que eu tenha conseguido ajudar quem está desenvolvendo ou precisando desenvolver views BSP com jQM a não ficar completamente sem rumo.

Até a próxima (e última) parte, onde eu vou falar do desenvolvimento de backend (e onde finalmente vai ter um pouco mais de ABAP).

Referências (também conhecido como “TL;DR” ou “tá de sacanagem que eu vou ter que ficar caçando link“)


Edit

Eu imaginei que fossem faltar algumas várias coisas mesmo nesse turbilhão de informações aí. Vamos lá:

  • Não ficou claro no post, mas ao contrário do que se faz normalmente com BSP puro, a ideia aqui é construir a view SEM NENHUM CÓDIGO ABAP. O markup é praticamente só HTML5, totalmente independente do BSP, com exceção de tags de OTR para os textos ( <%= otr(...) %> ) e da tag de página (normalmente eu uso <%@page language="abap" otrTrim="true" %> ). A ideia aqui é escrever a view com HTML, JavaScript e CSS de maneira que se ela fosse removida totalmente do BSP e implementada junto com outro backend, mantendo somente a estrutura dos recursos e substituindo as tags de BSP, a lógica da view funcionaria exatamente da mesma maneira.
  • De maneira nenhuma, absolutamente, NUNCA, eu repito, NUNCA, coloque lógica de negócio no JavaScript. JavaScript é código que 1) roda no browser, 2) pode ser depurado e analisado em tempo de execução, e 3) fica em cache, portanto isso é um problema de segurança. O JavaScript da view deve somente fazer coisas muito triviais com relação aos dados, que também não tenham relação alguma com dados de negócio, como por exemplo montar um seletor de ano:

    Lógica de negócio fica no código ABAP, e isso fica no BSP. Falarei disso no próximo post.

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About the Author

ABAP profissional desde dez/2008. Meu negócio é desenvolver ABAP, mas sem pensar só em ABAP: gosto de fazer o SAP conversar com outras linguagens e sistemas, sempre de olho no Basis.



4 Responses to BSP + jQuery Mobile, ou a aventura de SAP-webdev – Parte II: Frontend

  1. Muito legal, principalmente os links.

    JSFiddle é uma das melhores coisas que inventaram. Usei muito para conseguir “compartilhar” um erro em fóruns como o Stackoverflow e deixar que outras pessoas avaliem e possam me ajudar com um erro. Exemplo: eu perguntando sobre JQM.

    Valeu, abs!

  2. Grande post Leo… parabéns..

    Cara, estou com 1 milhão de duvidas, haha… Mas acredito que seja porque nunca trabalhei diretamente com o BSP puro, trabalhei bastante com o BSP do CRM, que é bem diferente.

    Você usa um editor externo e depois importa para o MINE do SAP? Como ficam as regras do negocio, tudo misturado no JS com ABAP? E a consulta no banco, ficam na pagina do BSP ou como montaria um MVC loko?

    Fiquei doido com esse post ae rs…

    Cara, curti muito esse post, mais uma vez parabéns… é nois 😉

    • Leo Schmidt says:

      Valeu Mauro!

      Eu infelizmente tive que deixar pra falar de BSP depois de falar de frontend, porque tem certas coisas que não dá pra explicar como fazer no BSP sem apresentar antes o que eu fiz com JS, como por exemplo as chamadas em Ajax. Mas, com o risco de adiantar aqui algumas coisas do próximo post, vamos lá:

      – Sim, como eu disse ali eu escrevo tudo de HTML, JS e CSS no Sublime e depois eu importo pro BSP. Vou falar melhor sobre isso e sobre como isso é organizado na aplicação BSP no próximo post.
      – Não, não tem e não deve ter nenhuma lógica de negócio dentro de JS. Código da view só pode servir pra manipular a view. Em alguns raros momentos você pode MONTAR JavaScript dentro do ABAP (que é o que o standard faz no caso da tela de login, como eu falei no outro post, por exemplo), e em vários casos eu monto HTML dentro do ABAP, mas lógica de negócio NUNCA (sério, NUNCA). O HTML que eu construo não tem NADA de ABAP. Nada mesmo.
      – Eu pretendo explicar o MVC que eu estou usando aqui no próximo post também, mas sim, coisas que envolvam o banco de dados (portanto, lógica de negócio) acontecem no código do BSP e NUNCA (sério, NUNCA) aqui no JS.

      Vou dar um edit aqui no post pra compartilhar essas coisas com a galera 🙂

      É nóis!

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